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Menino engraxate, eu não te esquecerei! – poesia

menino

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Por muito tempo guardei um recorte de jornal no qual havia um menino engraxate trabalhando numa calçada do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro em 1945. Aquela imagem marcou-me a memória muito porque fui um garoto muito pobre, vendi fogos pirotécnicos para os outros garotos da minha rua, na época das festas juninas no Rio de Janeiro, ganhar uns trocados e comprar tecido para minha mãe fazer roupas para mim e ainda poder ir ao cinema, minha eterna paixão. O tempo passou, mas mesmo as intempéries da vida e suas dores não conseguiram destruir, esfacelar o amor puro que carrego em meu coração. E em homenagem ao garoto da foto e ao garoto que fui criei este poema.

Menino engraxate, eu não te esquecerei!

Como para mim o tempo é apenas uma lufada de vento, passa diferente

Posso conhecer e saber de tudo, porque Eu sou, muito antes do nascer

De tudo, dos céus e da terra, de um Leblon de 1945 ainda não tão quente

No qual eu olhava um menino preto, ajoelhado, na busca de seu comer

 

Suas mãos pequenas e velozes trabalhavam com veemente destreza

E a cena tinha riqueza de detalhes, como a graxa numa garrafa de refrigerante

Escovas, panos enegrecidos, a pequena caixa de madeira e uma certeza

Que receberia uns trocados que mal fartariam sua fome e vida itinerante

 

O cabelo curto e crespo, a bermuda suja de graxa, a magreza, os olhos encovados

A camiseta que se tornara uma nuance de cinza há muito, não comoviam o estranho

Cujo preço dos sapatos bem alimentaria o menino, e dele diminuiria os pecados

E graça o estranho teria aos olhos de Deus, e não um endurecido coração tacanho

 

Divergente do coração do menino que era puro, homem de alma maculada

E por esta razão eu não te esquecerei, pequeno tão puro que sempre trabalhou

Desde que sua magreza passou a fazer sombra e tua fome a não ser saciada

Menino engraxate, explorado pela sociedade do Leblon que sempre o desprezou

Robert Thomaz

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